Arquivo mensal: maio 2014

Na frente do espelho

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waterhouse_mariana_in_the_southA coisa mais fácil do mundo é olhar para o outro. Ver os vícios e virtudes de um outro alguém, julgar, defender, compreender, analisar, admirar, odiar … Fazemos isso o tempo todo. Deve ser mais uma dessas características que só os humanos têm.

Agora, olhar para si e identificar sua real essência … é a parte mais difícil. Existem algumas pessoas que só conseguem enxergar os próprios defeitos. E há aqueles que até conseguem admitir um outro defeito, os menores e mais inofensivos; mas percebem mesmo as qualidades, numa tentativa de demonstrar uma super autoestima. Muitos enxergam ambos; mas admitem todos? E quando admitem algum defeito, será que estão se espelhando no outro? Quer dizer … é um defeito porque os outros pensam assim, ou é real? E se está trabalhando para melhorar ou é fã do discurso “eu sou assim mesmo e dane-se o que os outros pensam”?

Para uma pessoa perfeccionista (considero isso um “defeito” em mim) e com dificuldade para deixar para trás os próprios erros, eu diria que sou uma Phd nesse assunto: é muuuuuito mais fácil olhar para o outro. Porque mesmo que você seja extremamente egocêntrico e satisfaça somente os seus desejos, isso não quer dizer que você está sendo generoso consigo mesmo. Nesse aspecto, ao dar vazão a todo e qualquer desejo, você perde a chance de observar a real necessidade daquilo que está adquirindo; ao dar vazão para todo e qualquer desejo, você está se mimando, se mal acostumando.

Isso ficou confuso … deixe-me falar em primeira pessoa.

Atualmente tenho 28 anos. É pouco. Mas durante quase todo esse tempo, eu pensava sempre no outro. De todas as formas. Seja buscando aprovação, seja tomando conta para o outro não errar, seja querendo ajudar, seja julgando. Bom, não sou muito diferente do resto da humanidade. Porém isso sempre me incomodou, pois a maior busca da minha vida não é amor, um emprego legal, um bom lugar para morar. Sim, são coisas que eu busco ou busquei com muito afinco. Errando, errando, aprendendo e aprendendo. Mas não é a maior busca. Por 28 anos, desde que foi-me imposta uma maturidade a qual eu não sabia onde encontrar ainda nos primeiros meses de vida, estive em busca da minha essência. Porque eu sempre fui um bocado tímida e nervosa. E me impuseram tantas coisas, falaram tanto por mim, que eu tinha dificuldade de enxergar quem eu era de verdade. O que eu gosto e não gosto? Quais são meus conceitos e preconceitos? Quais são meus reais valores?

Mas isso todo mundo que me conhece já está cansado de ouvir falar. Devo ter contado pra cada amiga, cada psicólogo, cada namorado, cada familiar. Contei para mim mesma. “Eu sou assim porque …”. Bom, eu cansei. Cansei de verdade de procurar por desculpas plausíveis para os meus erros e acertos. Não vou assumir nada aqui … talvez por um pouco de vergonha (quem gosta de falar do que não gosta em si?). Mas porque eu devo explicações em primeiro lugar para uma pessoa só: EU.

Entre meados de 2013 e início de 2014, passei por pequenas-grandes turbulências. Na época, achava que já tinha alcançando a maturidade, porém a vida me deu um cascudo e disse: “ainda não”. Mas eu sabia que estava quase lá. Sou extremamente emocional e como disse um amigo: “não se fazem mais capricornianas como antigamente” e por causa disso só eu sei o quanto é difícil fazer o que estou fazendo agora. Porém, estou feliz com minha decisão.

Neste momento estou viajando. Para o lugar mais perigoso e ao mesmo tempo interessante que alguém pode viajar: o interior. Posso dizer que estou fascinada e amedrontada com o que tenho encontrado dentro de mim. Enxergar por completo cada vício e cada virtude é a melhor e mais difícil coisa que já precisei fazer na vida. Sinceramente, me sinto orgulhosa por estar fazendo isso. Porque sendo uma pessoa com baixa auto-estima, é óbvio que acabei começando pelos defeitos. São tapas na cara diários. E que tapas! Ao mesmo tempo, tenho me feito muito carinho, muitos afagos e me dado muitos abraços. Não estou mais me dando desculpas. Mas começando e aprendendo a me perdoar. É mágico. Agora, a cada tropeço, eu paro, observo e transformo. Algumas coisas e lembranças ainda me deixam triste e me fazem chorar? Sim … mas sou só um ser humano. No entanto, agora é diferente.

Não vim ditar regras ou me vangloriar como se tivesse achado a chave da felicidade e dizer que agora sou melhor que você. Nunca serei melhor que ninguém, e nem quero isso. Quero apenas ser melhor do que fui. E foi preciso uma lista de coisas para alcançar onde estou agora e será necessário outra lista para chegar, ao menos, perto de onde quero um dia:

1) Coragem. Muita coragem.

2) Vontade.

3) Ouvir o que falavam de mim. Não como uma aceitação da visão do outro. Mas como uma informação sobre o que eu estava transmitindo para o mundo.

4) Meditação. Praticar Yoga (Chinesa, no meu caso) tem ajudado MUITO. Recomendo!

5) Dar vazão a pequenas vontades que, por vários motivos, nunca realizei. Como dançar … Eu adorava dizer que não gostava/ sabia dançar. Não sei porquê … Sempre que estava sozinha e ouvia uma música, começava a dançar (nem que fosse dentro de minha cabeça).

6) Amor-próprio. Muito amor. Amar cada detalhe. Cada tesouro e cada lixo.

Essa receita talvez não sirva para você. Mas tem servido para mim. E assim, a vida segue.

Obrigada a quem leu.

Imagem: “Mariana in the South”, John William Waterhouse (1897, óleo sobre tela).

Novo ciclo

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Arodadoano

E como tudo no Universo gira, cá estamos novamente no fim e no recomeço. Para os neo-pagãos, seja lá onde se esteja e seja lá qual período do ano se escolha, 1 de maio (Hemisfério Sul) e 31 de outubro (Hemisfério Norte) é dia de Samhaim. Quer dizer, noite. Para quem não conhece, vou colocar um resumo do texto completo encontrado aqui:

“O Samhain (pronuncia-se “sou-en”), também chamado de Halloween, Hallowmas, Véspera de Todos os Sagrados, Véspera de Todos os Santos, Festival dos Mortos e Terceiro Festival da Colheita, é o mais importante dos oito Sabbats dos Bruxos. Como Halloween, é um dos mais conhecidos de todos os Sabbats fora da comunidade wiccana e o mais mal-interpretado e temido. Samhain celebra o final do Verão, governado pela Deusa. (O nome Samhain significa “Final do Verão”.)

Samhain é também o antigo Ano Novo celta / druida, o início da estação da cidra, um rito solene e o festival dos mortos. É o momento em que os espíritos dos seres amados e dos amigos já falecidos devem ser honrados. Houve uma época na história em que muitos acreditavam que era a noite em que os mortos retornavam para passear entre os vivos. A noite de Samhain é o momento ideal para fazer contato e receber mensagens do mundo dos espíritos.”

E aqui:

“Representa o fim e o começo do Ano Celta. Samhain (pronuncia-se Sau-ein) é conhecido como a Noite Sagrada que marca o início da parte escura do ano, com a proximidade do inverno, simbolizando o fim da colheita.

Samhain significa “sem luz” ou “fim do verão”, a noite em que o mundo mergulha na total escuridão da alma, preparando-nos para a chegada das noites frias. Na Irlanda antiga, todos os anos um novo fogo sagrado era aceso, com o qual se acendiam todos os demais fogos do vilarejo para queimar durante todo o inverno, com o objetivo de levar luz através do tempo escuro do ano.

A comemoração do Ano Novo Celta é um momento misterioso que não pertence nem ao passado, nem ao presente, nem a este mundo e nem ao outro. É o momento onde os portões entre os mundos se abrem e o véu que os oculta, se torna mais tênue. Época ideal para acessarmos o Outro Mundo.

Samhain marca também o início de um novo período e um novo recomeço em nossas vidas. Homenageie a memória dos antigos preparando alimentos de sua preferência e contando suas histórias aos seus descendentes. Ao anoitecer, acenda velas nas janelas da frente de sua casa, em sinal de respeito e reverência aos antepassados de sangue, da terra e da tradição.

Os celtas praticavam rituais de purificação, queimando simbolicamente, nas fogueiras ou no caldeirão, todas as suas frustrações e as ansiedades do ano anterior. Este festival é sinônimo de quietude, introspecção e renovação – representada pela união sagrada de Morrighan e Dagda.”

Na essência, é o período do ano que anuncia a chegada do frio (mesmo no Rio de Janeiro onde cá estou) e com ele as honras aos nossos antepassados que já se foram e nos deixaram suas memórias, experiências e legados.

Então, aproveito este post para homenagear minha avó paterna. Ela se chamava Léa. Faleceu há 30 anos atrás, mais ou menos 1 e meio antes de eu nascer. Nasceu em 30 de outubro (às vésperas de Samhaim da Roda do Norte). Não a conheci, mas sem querer me deixou um legado (como lembrou minha prima Carol, fui a única da família que seguiu seus passos profissionalmente). Assim como sou hoje, ela foi professora da rede municipal. E também esteve em busca de respostas além deste mundo profano, como estou desde o dia em que renasci. Gostaria muito de ter conhecido minha avó … não só pelo que acabei de escrever, mas porque sei que foi uma mulher extraordinária, admirável e querida por todos. Sinto falta, mesmo sem ter tido tempo de conhecê-la.

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(foto “roubada” do meu tio Jorge)

Lógico que ela não foi a única pessoa que faleceu e que de certa forma fez parte da minha vida. Mas para não ser injusta e esquecer de alguém … como o meu avô materno Mario Luiz, de quem eu puxei as feições (e as orelhas de abano), e que também não pude conhecer; meu bisavô Tião e minha bisavó Lourdes, casal lindo que conheci, mas não convivi muito … ops, citei mais avôs rss. Mas têm muitos Samhains para homenagear um a um, conforme eu for buscando mais a memória deles. Escolhi minha avó Léa por ser dona da história que conheço um bocadinho mais no momento (e pelas semelhanças que fiquei super feliz e orgulhosa em ter com ela).

Um ótimo recomeço a todos!