Na frente do espelho

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waterhouse_mariana_in_the_southA coisa mais fácil do mundo é olhar para o outro. Ver os vícios e virtudes de um outro alguém, julgar, defender, compreender, analisar, admirar, odiar … Fazemos isso o tempo todo. Deve ser mais uma dessas características que só os humanos têm.

Agora, olhar para si e identificar sua real essência … é a parte mais difícil. Existem algumas pessoas que só conseguem enxergar os próprios defeitos. E há aqueles que até conseguem admitir um outro defeito, os menores e mais inofensivos; mas percebem mesmo as qualidades, numa tentativa de demonstrar uma super autoestima. Muitos enxergam ambos; mas admitem todos? E quando admitem algum defeito, será que estão se espelhando no outro? Quer dizer … é um defeito porque os outros pensam assim, ou é real? E se está trabalhando para melhorar ou é fã do discurso “eu sou assim mesmo e dane-se o que os outros pensam”?

Para uma pessoa perfeccionista (considero isso um “defeito” em mim) e com dificuldade para deixar para trás os próprios erros, eu diria que sou uma Phd nesse assunto: é muuuuuito mais fácil olhar para o outro. Porque mesmo que você seja extremamente egocêntrico e satisfaça somente os seus desejos, isso não quer dizer que você está sendo generoso consigo mesmo. Nesse aspecto, ao dar vazão a todo e qualquer desejo, você perde a chance de observar a real necessidade daquilo que está adquirindo; ao dar vazão para todo e qualquer desejo, você está se mimando, se mal acostumando.

Isso ficou confuso … deixe-me falar em primeira pessoa.

Atualmente tenho 28 anos. É pouco. Mas durante quase todo esse tempo, eu pensava sempre no outro. De todas as formas. Seja buscando aprovação, seja tomando conta para o outro não errar, seja querendo ajudar, seja julgando. Bom, não sou muito diferente do resto da humanidade. Porém isso sempre me incomodou, pois a maior busca da minha vida não é amor, um emprego legal, um bom lugar para morar. Sim, são coisas que eu busco ou busquei com muito afinco. Errando, errando, aprendendo e aprendendo. Mas não é a maior busca. Por 28 anos, desde que foi-me imposta uma maturidade a qual eu não sabia onde encontrar ainda nos primeiros meses de vida, estive em busca da minha essência. Porque eu sempre fui um bocado tímida e nervosa. E me impuseram tantas coisas, falaram tanto por mim, que eu tinha dificuldade de enxergar quem eu era de verdade. O que eu gosto e não gosto? Quais são meus conceitos e preconceitos? Quais são meus reais valores?

Mas isso todo mundo que me conhece já está cansado de ouvir falar. Devo ter contado pra cada amiga, cada psicólogo, cada namorado, cada familiar. Contei para mim mesma. “Eu sou assim porque …”. Bom, eu cansei. Cansei de verdade de procurar por desculpas plausíveis para os meus erros e acertos. Não vou assumir nada aqui … talvez por um pouco de vergonha (quem gosta de falar do que não gosta em si?). Mas porque eu devo explicações em primeiro lugar para uma pessoa só: EU.

Entre meados de 2013 e início de 2014, passei por pequenas-grandes turbulências. Na época, achava que já tinha alcançando a maturidade, porém a vida me deu um cascudo e disse: “ainda não”. Mas eu sabia que estava quase lá. Sou extremamente emocional e como disse um amigo: “não se fazem mais capricornianas como antigamente” e por causa disso só eu sei o quanto é difícil fazer o que estou fazendo agora. Porém, estou feliz com minha decisão.

Neste momento estou viajando. Para o lugar mais perigoso e ao mesmo tempo interessante que alguém pode viajar: o interior. Posso dizer que estou fascinada e amedrontada com o que tenho encontrado dentro de mim. Enxergar por completo cada vício e cada virtude é a melhor e mais difícil coisa que já precisei fazer na vida. Sinceramente, me sinto orgulhosa por estar fazendo isso. Porque sendo uma pessoa com baixa auto-estima, é óbvio que acabei começando pelos defeitos. São tapas na cara diários. E que tapas! Ao mesmo tempo, tenho me feito muito carinho, muitos afagos e me dado muitos abraços. Não estou mais me dando desculpas. Mas começando e aprendendo a me perdoar. É mágico. Agora, a cada tropeço, eu paro, observo e transformo. Algumas coisas e lembranças ainda me deixam triste e me fazem chorar? Sim … mas sou só um ser humano. No entanto, agora é diferente.

Não vim ditar regras ou me vangloriar como se tivesse achado a chave da felicidade e dizer que agora sou melhor que você. Nunca serei melhor que ninguém, e nem quero isso. Quero apenas ser melhor do que fui. E foi preciso uma lista de coisas para alcançar onde estou agora e será necessário outra lista para chegar, ao menos, perto de onde quero um dia:

1) Coragem. Muita coragem.

2) Vontade.

3) Ouvir o que falavam de mim. Não como uma aceitação da visão do outro. Mas como uma informação sobre o que eu estava transmitindo para o mundo.

4) Meditação. Praticar Yoga (Chinesa, no meu caso) tem ajudado MUITO. Recomendo!

5) Dar vazão a pequenas vontades que, por vários motivos, nunca realizei. Como dançar … Eu adorava dizer que não gostava/ sabia dançar. Não sei porquê … Sempre que estava sozinha e ouvia uma música, começava a dançar (nem que fosse dentro de minha cabeça).

6) Amor-próprio. Muito amor. Amar cada detalhe. Cada tesouro e cada lixo.

Essa receita talvez não sirva para você. Mas tem servido para mim. E assim, a vida segue.

Obrigada a quem leu.

Imagem: “Mariana in the South”, John William Waterhouse (1897, óleo sobre tela).

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