Linhas de prata

Padrão

Cronos

Cronos, 2008 – nanquim sobre papel, técnica mista. Trabalho final de Desenho III na Escola de Belas Artes da UFRJ.

Mais ou menos quando eu tinha 17 anos, começaram a surgir um ou dois fiozinhos de cabelo branco. E eu arrancava. Cada vez que achava um, arrancava sem piedade.

Daí eles começaram a aumentar. Ficou difícil arrancar … é dolorido tirar vários né? Então, resolvi pintar. Como meu cabelo sempre foi escuro, pintar de vermelhão ou azul não era uma opção lá muito viável. Então pintava de preto, às vezes de borgonha, vermelho cereja pra deixar ele com brilho vermelho no sol.

Ficava legal às vezes, bonito. Mas não durava muito. O cabelo crescia, o dinheiro ainda não aparecia, e os fios brancos voltavam a aparecer na raiz. Eram poucos ainda. Mas me incomodavam tanto, que assim que eu podia, comprava a tinta e pintava de novo.

“Nunca” entendi porque me incomodava tanto. Não fui uma adolescente muito ativa, e a juventude não era um ideal. Nunca tive medo de envelhecer.

Mas no fundo eu sabia que era a velha história: se preocupar com os olhos e opiniões alheias. Uma pessoa que eu gostava e respeitava muito falou algo sobre desleixo uma vez. Não lembro exatamente o contexto e nem a frase. Mas o respeito mais importante, a mim mesma, não existia. E desrespeito a mim mesma era simples: eu nunca gostei de pintar. Tirando as poucas vezes em que eu quis dar uma de “trevosa” e tentar pintar com uma corzinha “diferente”, nunca tive paciência pra pintar. É chato, às vezes os olhos ardem, é muito difícil encontrar a cor exata do meu cabelo … e eu já quase nem vejo mais a cor natural. E ele sempre foi tão bonito.

Lá se foram 11 anos, e cá estou.

IMG_20140703_190157152Faz algum tempo que eu não pinto. No início era preguiça mesmo. Como eu já disse, não gosto de pintar. Não tenho ideia da última vez que ele viu tinta. Desleixo?

Comecei a me olhar no espelho. Com os cabelos brancos cada dia mais compridos, em maior quantidade e aparecendo no topo da cabeça (antigamente ficavam mais escondidos … e eu ainda pintava), normalmente eu me sentiria mal. Feia. E desleixada. Mas eu continuei olhando … e apesar disso, apesar das pequenas acnes que voltaram, apesar da sobrancelha que não tenho tempo de fazer sempre e tá meio “errada” … eu me sinto bonita. Cada dia mais.

Porque eu me sinto livre. A liberdade é bem mais precioso e bonito que alguém pode ter. Muitos lutaram, suaram e morreram pela liberdade física. E muitos até hoje lutam pela liberdade de ser quem realmente são. Mas a liberdade é uma armadilha em nosso mundo corrompido. Então, eu sei que ainda tenho muito o que libertar, e talvez nem consiga ser livre de verdade um dia. Mas estou lutando pra isso, com toda a vontade e coragem que eu puder conquistar todos os dias.

Então (desculpe a expressão, mas eu preciso dizer): foda-se a tinta de cabelo.

10256657_576541975798683_2137625289713077295_o

por Carol Rossetti

Talvez eu mude de ideia algum dia (espero que não). Mas ser livre é isso, mudar sempre. Por ora, chega de esconder minha cor com artifícios par a fingir o que eu não sou.

 

 

Anúncios

»

  1. É… eu sei o que são esses fiozinhos brancos. Escondi enquanto deu mas agora tem bastante e eu estou me divertindo de pintar. Gosto de brincar de escolher a cor e realmente acho divertido a parte de pintar ^^ Sobre a questão do desleixo: a sociedade interiorizou que mulheres devem ter cabelos brancos sempre pintados a não ser que sejam realmente velhas oO se fosse no homem.. “homens grisalhos são atraentes” :p sexismo. Acho que o importante é se sentir bem. Acho que no meu caso sempre quis poder pintar meus cabelos sem que nego ficasse reclamando que eu estava destruindo meu cabelo e bla bla bla então ter um “por que” para pintar esta sendo muito bom ^^

    • Eu já quis (não sei quando vou querer de novo rsss) pintar o cabelo de vermelho, descolorindo e tal. Não pra esconder os brancos. Nesse caso, porque eu acho bonito. Mas meus fios são grossos, com pontas secas, e tá muito manchado pra descolorir ele inteiro no mesmo tom. Fora o trabalho pra retocar raíz. Preguicite aguda mesmo … deixo pra lá. Prefiro não detonar o cabelo. 🙂

      • E esse sexismo todo sobre homens grisalhos serem atraentes e mulheres grisalhas serem descuidadas incomoda bastante. Mas, faz um tempo, vi na faculdade uma mulher (já senhora, com uns 50), com o cabelo todo grisalho tão bem cuidado que só pensei: quero ser assim quando crescer rss. Acho que o fato de estar perto dos 30 ajuda a não incomodar tanto eu resolver ficar meio grisalha logo.

  2. Eu tenho um desespero do tamanho do mundo com os poucos fios que eu encontro, até hoje so encontrei 4 e tirei todos, mas eu sei que muito disso é o medo que eu tenho de envelhecer. Ser linda não é a cor do cabelo, a sombrancelha (nem me fale em tempo de tirar), o peso ou qualquer outra coisa, ser linda é se amar antes de qualquer pessoa e gostar do que vê por dentro e por fora.

    • Dani querida! Saudades dos tempos dos blogs góticos rss ❤
      Quatro fios brancos? Isso aí foi o estresse pelo qual você passou. Provável. No meu caso é estresse + genética. Minha mãe tem bastante fios brancos desde nova também.

      E concordo plenamente com você: a beleza está no amor próprio!!!! Ser linda pra si mesma em primeiro lugar.

  3. Pingback: Jagged little pills | Alma da Terra

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s